A amplitude da grande angular
Por Mário Bock

 

Conheça as lentes que oferecem os maiores ângulos de visão e que devem fazer parte do equipamento de quem deseja fotos mais criativas e profissionais

Um passinho para trás, mais um e outro...Chega um ponto em que não dá mais: ou o fotógrafo cai dentro da piscina ou tropeça num vaso de flores. Para não passar por momentos assim com uma lente que não enquadra todo o grupo de amigos, é preciso ter como parte do equipamento ao menos uma objetiva grande angular. Com a 24 mm, é possível retratar o grupo inteiro sem se afastar muito a 20 mm capta todo o ambiente de uma sala e 17 mm enquadra um prédio de mais de 20 andares. Mas é nas cenas corriqueiras, fotografando bem de perto, que a grande angular permite compor imagens criativas e inusitadas.

Hoje, as máquinas eletrônicas (ao contrário de antigamente) vêm equipadas com lentes zoom que incluem uma grande angular, em geral a 28-80 mm ou 35-80 mm. Estas lentes colocam o fotógrafo iniciante em contato com a grande angular mesmo sem que ele saiba. Então, usa-se a distância focal permitida pela zoom para fazer retratos, fotografar pessoas de corpo inteiro, grupos, veículos e paisagens. Grande parte das boas fotos é fruto da posição grande angular. É que, além de aumentar a profundidade de campo, ela também expande a área de foco (mesmo com diafragmas mais abertos). Isto torna muito difícil desfocar o tema com uma grande angular.

São consideradas do grupo das grandes angulares todas as objetivas (e a posição em zoom) abaixo de 50 mm, a lente normal. Enquanto a 50 mm tem um ângulo de visão de somente 46 graus, a 35 mm cobre um campo 62 graus a 24 mm, obrigatória para os profissionais, abrange 84 graus, quase o dobro do captado pela normal. Há também as lentes de 28 mm (75 graus), 20 mm (94 graus), 17 mm (102 graus), 14 mm (110 graus) e as famosas olho-de-peixe, de 6 a 8 mm que abrangem um ângulo de 180 graus e provocam aquele efeito de imagem circular. São as mais caras e raras.

Uso Específico

Com tantas grandes angulares disponíveis, pode haver dificuldades na escolha. A seleção da melhor distância focal deve ser criteriosa: é que, apesar das vantagens, estas lentes costumam distorcer o assunto. Exageram na perspectiva, fazendo um objeto parecer mais distante que outros. Por outro lado, essa alteração acaba interferindo no tamanho relativo da imagem quanto mais próxima a objetiva estiver do tema. Pessoas podem ficar mais altas e magras ou mais baixas e gordas, especialmente se enquadradas mais próximas às bordas do fotograma.

O "problema" da distorção é imperceptível em fotos panorâmicas. É aceitável sempre que se precisa captar uma cena a curta distância mas algum obstáculo (como uma parede) impede o fotógrafo de se distanciar o suficiente. Nas grandes angulares abrangentes, abaixo de 24 mm, a tendência (especialmente as mais antigas) é arredondar o assunto, deixando objetos e pessoas "deformadas", com aspecto caricaturescos, tanto "pior" quanto mais próximos da máquina. A não ser que a intenção seja uma foto criativa ou engraçada.

Embora a distância focal da 35 mm ou da 28 mm (como é visto na maioria das zoom para iniciantes) seja considerada grande angular, o fotógrafo precisa de uma lente de maior amplitude. Se não, vai continuar dando passinho para trás...

 

Enquadramento é o segredo

O uso de grande angular exige um enquadramento diferente do utilizado em uma objetiva "normal" ou teleobjetiva. Se a foto for feita de forma convencional, tudo ficará afastado e sem graça, típica de amador. O segredo da grande angular é fazer tomadas mais criativas do alto ou bem de baixo, ao nível do chão, algumas vezes com a máquina "entortada" e nunca bem de frente ao assunto e, de preferência, sempre com um primeiro plano bem próximo. Um exemplo: em ambiente interno, foi usada a 20 mm para enquadar uma mesa com um abajur bem próximo, num dos lados do visor. O abajur em primeiro plano deu efeito criativo à imagem (foto ao abaixo).

A objetiva grande angular - em especial as de 24, 20, 17 e 14 mm - é muito fácil de usar, por praticamente dispensar foco e enquadramento rigoroso. Assim, o disparo "instintivo", sem dar tempo para que uma pessoa reaja ou se arrume, resulta geralmente em fotos bastante expontâneas, que conserva o clima reinado no ambiente. A técnica de apontar e disparar com uma 20 mm é útil para fotografar grupos de pessoas em rodinhas fechadas, com a máquina levantada e apontada por cima da cabeça do fotógrafo. Ou para retratar rapidamente pessoas sem que tenham tempo de se ocultar ou ainda retratar grupos de pessoas, como as modelos da reportagem "Desejo de Aparecer" (edição 56). A fotógrafa Ciete Silvério usou uma 20 mm (com flash rebatido) ao nível da mesa onde almoçavam as meninas e o resultado foi tão expontâneo que ela parecia fazer parte do grupo.

 

24 MM

 

Inicia a linha de objetivas com maior ângulo de visão. A construção ótica é simples e o preço, mais acessível, no caso das lentes fixas. É uma lente bastante versátil pois permite fotografar festas, eventos e grupos em meio a multidões com distorção aceitável, além de enquadrar panorâmicas em ambientes internos e externos. Quando usada próxima do assunto, cria efeitos dramáticos e pode identificar o personagem (se for o caso) com o ambiente. Regra geral, a 24 mm incorporada à zoom tem boa captação de luz (casos da Nikon 24-120 mm e a Canon 24-85 mm, ambas f.3.5) bem como a fixa tem abertura máxima de f.2.8, o que favorece a foto sem flash em ambientes claros internos, com filme ISO 400. Se necessário, a 24 mm permite usar velocidades baixas de até 1/8 s (na mão e sem tremer) - exigindo que o fotógrafo fique bem estável, de preferência encostado a uma parede. Este recurso é ótimo para fotos panorâmicas de cidades e festas folclóricas noturnas, em que o uso do flash só iluminaria o primeiro plano, deixando o fundo escuro.

 

20 MM

 

Esta lente fixa, geralmente f.2.8, é a preferida pelos profissionais não só para fotos panorâmicas, interiores e de arquitetura como também para criar efeitos mais criativos e de impacto caso seja usada bem próxima do tema (objetos, veículos, pessoas, animais...). Neste caso, a distorção é bem aceita por tornar a foto mais criativa e interessante. Assim, o fotógrafo pode tentar vários ângulos, como de baixo para cima ou vice-versa. Além disso, a 20 mm tem enorme profundidade de campo e, com abertura de f.8 focaliza de 8 cm ao infinito. Isso facilita o uso e garante foco em todo o enquadramento.

 

14-17 MM

 

São grandes angulares muito abrangentes. As mais simples arredondam o enquadramento. As mais sofisticadas, têm pouquíssima distorção. Específicas para fotos panorâmicas e de arquitetura, também são usadas em forma intencional para imagens de impacto por justamente exagerar na perspectiva. Exemplo: para fotos de grupos de pessoas, como de políticos, essa lente destaca (e distorce) o primeiro plano, deixando-o em evidência, com tamanho muito maior que o restante. Como vantagem adicional, a enorme profundidade de campo assegura nitidez em todo o enquadramento, sem necessidade de focar a todo momento.

Zoom Grande Angular

 

A zoom estritamente grande angular conta com todas as vantagens das objetivas de distância focal variável, como menor peso e número de lentes para levar, versatilidade e facilidade de uso. Infelizmente, o preço elevado é o maior empecilho. Mas devem ter sempre a preferência diante de uma lente fixa de preço igual ou mais caro. No entanto, existem algumas opções de zoom grande angular com abertura um pouco menor e preço mais acessível: a Canon tem a 22-55 mm f.4/5.6 por um preço bem inferior à 17-35 mm f.2.8 ou a 20-35 mm f.3.5-4.5. A Nikon oferece opções 18-35 mm f.3.5-4.5, 20-35 mm f.28 e 24-50 mm f.3.3-4.5, todas caras. Para câmera Pentax, existem a 17-28 mm f.3,5-4.5 e a 20-35 mm f.4, ambas com preço também salgado.

 

Olho-de-peixe

 

As grandes angulares olho-de-peixe de 6 e 8 mm têm essa denominação de fábrica pelo efeito circular que causam na imagem. Cobrem um ângulo de 180 graus (objetiva de 8 mm) até 220 graus (objetiva de 6 mm) captando imagens até do próprio pé do fotógrafo. Por causa da lente externa altamente convexa e que não permite a colocação de filtros, a maioria das olho-de-peixe vem com três filtros embutidos - UV, amarelo e verde. Além disso, dispensa ajuste de foco pois cobre, com qualquer abertura, de 3 cm até o infinito. Isto permite closes a poucos centímetros do nariz de uma pessoa, criando efeitos de caricatura muito engraçados. Originalmente desenvolvida para aplicações em astronomia e meteorologia, hoje é usada em fotos de efeito artístico e na documentação arquitetônica, onde o efeito circular não sofre restrições. Objetivas de 17, 15 e 14 mm, que registram imagens retangulares com as linhas da perspectiva arredondadas, também são chamadas de olho-de-peixe. Mas a criação recente da lente asférica - que usa internamente uma lente côncava-convexa de curvatura extrema para corrigir as distorções e a tendência para o arredondamento - fez com que surgisse uma nova categoria de grande angular. Com um ou mais destes elementos asféricos, as mais avançadas objetivas de 14 a 17 mm passaram a ter ângulo de visão similar ao das tradicionais olho-de-peixe, mas com o resultado de uma lente de 28 mm.